santos fernando

O escritor português Santos Fernando nasceu em 1927 na Lapa, Lisboa.

Cursou a Escola Comercial e seguiu sendo um autodidacta na literatura. A sua obra é desde cedo caracterizada pela exploração do nonsense e do absurdo, com extrema elegância estilística e uma vincada ferocidade, tornada benigna pela cumplicidade com a fraqueza humana que sempre transparece nos seus textos.

Privou com figuras gradas da cultura portuguesa (por exemplo, Luiz Pacheco e Vítor Silva Tavares, seus próximos) e viu publicados, desde a juventude, textos em jornais nacionais e brasileiros, nomeadamente o português Diário Popular e, do outro lado do Atlântico, O Pasquim, com o qual colaborou regularmente a convite de Millôr Fernandes. Escreveu para rádio, televisão, teatro de revista - destaque-se a parceria regular com o seu grande amigo Ferro Rodrigues -, e publicou em vida treze livros de prosa, alguns dos quais foram também editados no Brasil. Muitos consideraram-no um dos maiores humoristas de língua portuguesa. Morreu em 1975, pouco depois da publicação de Sexo 20.

Em Março apresentamos, na Leituria, uma exposição dedicada à vida e obra de Santos Fernando, que coincidirá com o lançamento de Sexo 20 pela Sulfúria.

Contamos consigo no dia 18 de Março às 17h00.

Artigo de Ferro Rodrigues no Diário Popular em 16 de Dezembro de 1976

«Santos Fernando morreu fez um ano. Ao que dizem, assassinado pelos sonhos; ao que dizem, por viver apressadamente – outra maneira de se existir mais. Sabe-se o que envolve de complacência resignada a homenagem póstuma a qualquer amigo: surgem, quase inevitavelmente, as pias palavras sem significado, sem direcção, sem sentido. Santos Fernando merece a atenção lúcida dos que ainda se aprestam a apreciar a boa prosa servida por uma boa dose de imaginação».

Artigo de Luiz Pacheco no Diário Popular em 16 de Dezembro de 1976

«Nem quero falar de mortos. De gente viva, pois. E é bem vivo que o Santos Fernando me aparece em Caldas da Rainha, no Verão de 65. Grande corpo, grande copo, bom garfo, grande Amigo. Uma presença aberta em riso no gozo vivido de estar. Uma gentileza e uma delicadeza de sentimentos que espantavam. Também, a solerte imediata percepção do grotesco e absurdo das coisas e das pessoas, mas sem acrimónia. Nós (eu, o Vítor Silva Tavares) chamávamos-lhe o Homem Gordo, ligando o físico bojudo à larga compreensão, à grandeza de alma (para empregar um termo cristão) de que ele escuberava, numa bonacheirice que se julga ser apanágio quanto mais bochechudos dos gordos (não é, às vezes pior) e em Santos Fernando era dádiva, era superioridade inata, era decerto a resultante do seu fundo conhecimento da sociedade errada que o rodeava, de que foi vítima como tantos mas não lhe roubou nunca a alegria de viver.»